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sábado, 24 de outubro de 2015

Lançamento do documentário: Retrato da Atriz Enquanto Corpo

Exibições dias 27 e 28 às 19h
Museu do Doce (Praça Coronel Pedro Osório, 8 - Pelotas)

Após a exibição será realizado um debate com a artista do corpo Maria Falkembach, com mediação da Prof. Dra. Marina de Oliveira (UFPel)



terça-feira, 1 de setembro de 2015

Texto de Marina Oliveira sobre Destecendo Penélope Bloom

Impressões acerca de Destecendo Penélope

Marina de Oliveira

Ao abrir as cortinas, o espectador vê a personagem de pé ao lado de uma cama e pode observá-la numa sequência de ações que vão do móvel ao chão. Movimentos criados a partir de posturas corporais que remetem às ideias de reflexão, insônia, insatisfação, tédio etc. Em trajes íntimos do início do século XX, a personagem feminina de Joyce vai desvelando-se na interpretação de Maria Falkembach. O autor irlandês descontrói a Penélope mítica que ficou no imaginário coletivo como símbolo de fidelidade e submissão ao marido. Molly é fiel apenas a ela mesma e aos seus instintos. Em Destecendo Penélope, não vemos o fluxo de consciência verborrágico de Molly, nem a sua delirante premência sexual, presente no último capítulo de Ulisses, mas uma figura feminina pulsante, que respira, dança, fala e exerce a sua sexualidade de modo espontâneo. A Penélope de Maria/Júlia é mais comedida ou a de Joyce está mais para ninfomaníaca, uma projeção masculina de sex machine? A resposta vem numa passagem marcante do espetáculo, em que há uma espécie de distanciamento brechtiano, quando Maria lê uma carta em que desabafa, fala sobre o que a deixa furiosa no que tange ao cerceamento da libido advindo, sobretudo, da padronização/idealização de corpos pouco naturais, enfatizando: “não dá pra gozar fazendo pose”. A cena em que a atriz-bailarina se apalpa, ressaltando as porções que poderiam ser vistas como fora do padrão é de grande impacto e fazem o espectador pensar que a beleza do corpo-pulsante está além do estereótipo do corpo-produto. Molly diz sim. Maria diz não.  “Não dá pra gozar fazendo pose”. Maria também diz, com o corpo: “Não dá pra dançar fazendo pose”. A dança, assim como o gozo, vem de dentro, liberdade sem freios, verdade íntima que subjaz. O corpo, nesse contexto, não é produto mercadológico vinculado aos referenciais de uma sociedade pautada pela heteronormatividade, mas ferramenta de expressão fisiológica e artística.
São pontos altos do espetáculo: a constante organicidade da atriz-bailarina, a cena do confessionário, os encontros com o sr. Cuffe, a representação da mãe, Marion, o manuseio do leque, a leitura da carta, a menção ao filho morto, o apalpamento, as danças do início e do final, com o vestido de noiva. Pontos a serem repensados: o espetáculo ganharia em potência se tivesse 45/50 minutos e não 1 hora; ele apresentou, quando vi, dois finais em suspensão, antes do real final. As trocas de figurinos parecem excessivas, talvez desse para reduzi-las. Me pareceu demasiada a leitura de três textos distintos no abajur à esquerda do espectador. Talvez o texto científico sobre a ideia de supressão da maternidade fosse suficiente. São impressões.
Depois de reivindicar o direito ao exercício da libido sem deformações midiáticas, de criticar a visão cientificista patriarcal que despreza a importância da mulher enquanto mãe e de compartilhar com o espectador cartas em que se diz “o que é estar vivo hoje?”, Maria diz sim. Sim ao desejo. Sim ao empoderamento da mulher. Sim à vida. Como espectadora, me sinto em total comunhão com a abordagem libertária do espetáculo. Me alio à Molly, à Maria e à Julia e também digo sim. Vida longa ao Destecendo Penélope!

sábado, 29 de agosto de 2015

Primeiros efeitos do Destecendo Penélope Bloom

Texto do Paulo Gaiger, publicado no Diário Popular - dia 28 de agosto de 2015.

Que meu fogo seja sagrado: três mulheres imprescindíveis em Maria Falkembach


Votar na vida, no amor, na arte, no sim e em você, você mesmo que está lendo este artigo, deve ser uma decisão dificílima em tempos de utilitarismos, de intolerância, de banalidade do mal e de egoísmos infantis. Talvez porque tomamos como sagrado tudo que nos afasta dos outros, nos entorpece de medo, ingenuidade ou ignorância. No espetáculo de dança-teatro Destecendo Penélope Bloom, em curta temporada no Teatro do Sest-Senat de Pelotas, a bailarina e atriz Maria Falkembach nos oferece a reflexão contundente através de três mulheres (e as boas e belas transformações humanas só acontecem a partir da mão e do olhar feminino e, por isso, as bancadas evangélicas e da bala querem emudecer as mulheres) que nos desacomodam e indagam: o que estamos fazendo de nossa vida? O que estamos fazendo com os outros, os diferentes da gente? Por que aceitamos dogmas religiosos e preconceitos que nos constrangem, que nos impedem de amar, de viver, de criar, de estar, livremente, com o outro? Penélope, Molly Bloom e Maria tecem e destecem o tecido da ontologia de nossas escolhas, do pensamento sobre o qual não pensamos, das vendas que cobrem nossos olhos, dos machismos que nos contaminam. A literatura como movimento e o corpo feito poesia encarnada, atemporal, o mito grego, a grande obra de Joyce dos começos do século 20 e os nossos dias de Maria. O espetáculo vai tomando conta de nossos sentidos; pouco a pouco, vai cavoucando nossos pilares; delicadamente, vai afrouxando nossas certezas; pela vida boa, vai regando o feminino em cada um de nós. É arte e é carne, por isso, não é fácil, mas é imprescindível. Do quarto ao píer e, no caminho, a desconstrução da caixa preta e da ilusão que nos protege como se não fosse conosco, Maria está inteira e lúcida, segura do que ela, Molly e Penélope são sendo e têm a dizer. Há uma quarta mulher neste espetáculo: Júlia Rodrigues, a diretora que brinda com o delicioso licor de sua mão e olhar. A trilha de Leandro Maia mais uma vez revela o grande compositor que ele é. A iluminação desenhada e operada por Daniel Furtado cria as atmosferas que o corpo/poesia solicita. Destecendo Penélope Bloom é um espetáculo imperdível. Aguardem o DVD. Por outro lado, mostra o acerto do Procultura e exibe para a cidade mais um espaço para as produções locais das artes, o aconchegante teatro do Sest-Senat.







quinta-feira, 20 de agosto de 2015

domingo, 16 de agosto de 2015

Destecendo Penélope Bloom

Depois de bastante tempo ocupando outros papeis da criação cênica, é um prazer retomar aquilo que parece que sei fazer.


sexta-feira, 24 de outubro de 2008

RETRATO DA ATRIZ ENQUANTO CORPO: na criação de Molly Bloom

Vídeo-Documentário sobre o meu processo de criação na montagem do espetáculo Penélope Bloom. Foi construído com imagens de ensaio, de mostras de processo e de apresentações (de junho de 2007 à maio de 2008), tendo como fio condutor o meu caderno de anotações de ensaios.
O documentário propõe apresentar a construção de um modo de conhecimento específico no trabalho de uma atriz-dançarina. Por ser uma atriz que vive a experiência de problematizar a própria prática (que vive entre o espaço cênico e a academia), constato e aposto na contribuição deste conhecimento para a compreensão do mundo e do sujeito contemporâneo. A arte tem contribuído com o discurso científico, justamente por colocar-se onde a linguagem discursiva não é suficiente e nos limites entre os diferentes discursos das diferentes ciências. A arte (a dramaturgia do corpo, aqui de maneira específica) pode ser a ponte entre diferentes “verdades”.

Assim, o vídeo passa por conceitos tais como DRAMATURGIA DO CORPO, TRANSCRIAÇÃO e INTERTRANSCULTURALIDADE.
Mesmo antes de ser finalizado, O RETRATO DA ATRIZ ENQUANTO CORPO já foi apresentado em duas ocasiões: no VI Simpósio de Arte-Educação, no dia 24 de setembro, na UNICENTRO (Guarapuava, Paraná) e Semana Da Pedagogia na FACOS (Osório, RS) no dia 15 de outubro.
A recepção do público foi além de nossas expectativas. Isto aumentou a nossa vontade de buscar financiamento para finalizar, publicar e distribuir o vídeo.

Para introduzir o trabalho fizemos algumas imagens na rua, numa performance relâmpago, para apresentar o conceito de corpo como processo de trocas com o meio. As fotos aqui postadas, são deste dia.


FICHA TÉCNICA DO VÍDEO-DOCUMENTÁRIO

Produção: Maria & Cia e Catarse

Câmera: Júlia Rodrigues e Gustavo Türck

Roteiro e Edição: Maria Falkembach e Têmis Nicolaidis

Trilha sonora: Leandro Maia.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Alunos da Monte Cristo assistem Penélope Bloom


No dia 03 de junho, no Teatro Renascença, alguns alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Vila Monte Cristo, foram assistir o espetáculo Penélope Bloom. Eram todos estudantes das etapas finais da Educação de Jovens e Adultos (EJA), turmas T4, T5 e T6, sob responsabilidade do professor Mateus Gonçalves. Importante falar que o Mateus foi meu colega na faculdade e que atuamos juntos da peça Agora é Festa (escrita por mim em 1997). Mas mais importante é falar na seriedade que o Mateus conduz o trabalho teatral no colégio e no empenho dele em ampliar o espaço para o conhecimento artístico dos alunos.
Duas semanas depois da apresentação, fui à Escola Monte Cristo conversar com os alunos. E encontrei um grupo atento e entusiasmado para saber mais. Haviam elaborado perguntas, em grupo, depois de terem conversado e escrito sobre suas impressões, percepções.
E me fizeram muitas perguntas sobre o fazer teatral, sobre aquele espetáculo que não contava uma historinha com começo, meio e fim.
E então o teatro ainda tem sentido.
Pedi permissão para colocar no blog alguns escritos de alguns dos alunos. E o professor Mateus, responsável e cuidadoso de seus alunos, me pediu pra ter cuidado, pois esses “Jovens e Adultos” ainda não tem escrita fluente e totalmente correta. Peço, então, para que os leitores leiam esses escritos como eu, como lemos Joyce, percebendo a construção do texto que está nas entrelinhas. Percebendo o sujeito que segura a caneta e que faz cada voltinha, percebendo o atrito.
Maria.
Se tu clicares em cima da imagem, ela se amplia.





“Na terça-feira passada tive o privilégio de, juntamente com meus colegas de turma, ir ao teatro Renascença assistir ao espetáculo, Penélope Bloom, peça esta que é parte de um romance, um dos mais importantes do século 20. Cheguei ao teatro ansiosa, para ver como nos seria apresentado o monólogo vivido por duas atrizes. Durante o espetáculo, aos poucos percebi que a peça tratava-se de uma esposa à espera de seu marido que havia partido para a guerra, ela faz um balanço de sua vida, recorda e fala com o corpo, que por sinal é quem mais parece falar (seu corpo). Molly Bloom lembra do dia do seu casamento, e o tempo da cena são as primeiras horas do dia seguinte. Parece querer provar que ainda é uma mulher desejável capaz de seduzir muitos homens, ao contrario do que seu marido pensa, uma vez que se envolve com mulheres bem mais jovens. Confesso que para mim a peça foi de difícil entendimento, embora tenha um razoável conhecimento de espanhol, tive dificuldades de entender, não pelo idioma, como falei, mas pela linguagem do texto mesmo, talvez por ser apenas um capítulo de tantos outros do romance. Sai com vontade de ver mais, adorei o “dueto” embora fosse um monólogo, Maria falava basicamente com o corpo achei encantador, enquanto a fala mais expressiva era feita pela Vicky, se fechássemos os olhos teríamos apenas uma atriz no palco, elas de fato eram uma só personagem, Molly Bloom. Chamou-me atenção o cenário, não é preciso mobiliário farto quando se tem um bom texto, não nos detivemos nesse detalhe, pois as personagens nos detiveram a atenção, uma escada, um piano e uma cama, esta basicamente, foi o suficiente para completar o cenário. Não lembro no momento de nada que já tenha visto, relacionado a peça, talvez algum filme de romance mais antigo, como “E o Vento Levou”. Vou procurar obter mais conhecimentos, sobre este clássico da literatura mundial, que é este romance de Ullises. Embora não tenha entendido muito bem a linguagem do texto, achei muito interessante o espetáculo.”





quinta-feira, 22 de maio de 2008

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Penélope Bloom no "Segundas Dramáticas"

SEGUNDAS DRAMÁTICAS
Dia 19 de Maio
18 horas
Sala Alziro Azevedo
Av. Salgado Filho, 340

Reflexão sobre o processo de criação do espetáculo
Penélope Bloom
Composição de uma dramaturgia cênica dentro de uma pesquisa de transcriação e de intertransculturalidade

Com: Maria Falkembach, Gerardo Bejarano,
Leandro Maia e Júlia Rodrigues

Artistas e sua necessidade orgânica de se reinventar e, para isto, reinventar sua linguagem, confrontam os modelos vigentes. No teatro existem exemplos de artistas que chegaram a travar uma luta contra o teatro então vigente (Craig e Artaud foram dois dos mais inflamados). Ao mesmo tempo, a redescoberta de tradições teatrais (como um exemplo: a commedia dell’arte) alimenta o movimento do ato criador da cena.
Pois foi com esta necessidade, de se reinventar, que Penélope Bloom vai evidenciar o teatro como espaço privilegiado para “pensar, entender a complexidade humana numa perspectiva antropológica que integre o único e o múltiplo” (conceito de intertranscultural). Assim, duas culturas e poéticas teatrais distintas confrontam-se e complementam-se em cena, provocando os vazios necessários para um processo de criação.

A peça propõe uma leitura contemporânea de um dos maiores clássicos da literatura mundial: “Ulisses”, de James Joyce. Uma co-produção Brasil-Costa Rica que evidencia a multiplicidade de linguagens (teatro, dança, música e literatura) construídos dentro de uma experiência de intercâmbio cultural. A personagem Molly Bloom – marco do modernismo literário – é vivida ao mesmo tempo por duas atrizes: a brasileira Maria Falkembach, e a costarriquenha Vicky Montero. A direção é do costarriquenho Gerardo Bejarano e a trilha sonora é composta pelo brasileiro Leandro Maia.

Para ver fotos do espetáculo e textos relacionados, acessar o blog http://dramaturgiadocorpo.blogspot.com

Penélope Blooom retorna em cartaz no Teatro Renascença (av. Erico Veríssimo, 307), nos dias 20, 21, 22, 28 e 29 /05 e 3, 4 e 5/06, às 21h.

SEGUNDAS DRAMÁTICAS
Encontros, leituras, debates, eventos.
Sala Alziro Azevedo
Av. Salgado Filho, 340
ENTRADA FRANCA
DAD/ CADi/PPGAC
Instituto de Artes/UFRGS - 100 Anos
Toda a semana, às 18 horas!

terça-feira, 13 de maio de 2008

PENÉLOPE BLUM

Agradecido pelo convite a participar nesta mesa¹, espero poder falar sobre uma declaração de amor.
Antes, contudo umas notas para contextualizar o assunto. Estamos a falar de um romance, mas não de um romance qualquer, nem sequer de um entre outros maravilhosos romances. Estamos falando, senão do último romance, daquele que fecundou todos os que vieram depois: Ulisses, de James Joyce.
Escrito entre 1914 e 1922, desenvolve-se em torno a três personagens o quais impregnam com seu selo às três partes do romance: Stephen Dedalus, Poldy e Molly, os dois últimos, respectivamente, hipocorísticos de Leopold Paula Bloom e Marion Bloom.
Os que o consideraram o cume de todos os romances, chegaram a esta consideração devido a seu caráter de paródia de A Odisséia, de Homero. O substrato para tal estava contido em uma frase atribuída a Kierkegaard: toda fase histórica termina com a paródia de si própria. Era o que tinha acontecido com o Don Quixote em relação aos romances de cavalaria.
Ulisses, dizem, nasceu com um estigma: o de difícil – ou mesmo impossível – leitura. Pode ser! Mas não se pode deixar de lembrar que as edições das duas traduções ao português estão esgotadas. E a segunda mal tem dois anos.
As dificuldades parecem dever-se à duas vertentes: de um lado um certo desconhecimento da intimidade do mito grego e, de outro, o fato de utilizar um inglês impregnado de dialeto irlandês e também de outras ilhas britânicas, do slang americano, de dialetos não expressos literariamente, além de citações e alusões veladas, da Bíblia e dos escolásticos, de obras escritas em grego, latim, francês, italiano, hebraico, alemão, quando utiliza muitas vezes palavras no idioma original, sem a menor cerimônia.
A relação com o clássico de Homero tem sido estabelecida assim: Os três primeiros capítulos da parte S, em que traz a cena o personagem de O retrato do artista quando jovem, Stephen Dedalus, compreende-se como uma referência ao filho de Odisseu, Telêmaco, e representa a arte. Os doze capítulos seguintes levam a marca de Leopold Bloom; uma paródia do próprio Odisseu a viver sua odisséia de 18 anos no único dia 16 de junho de 1904, e representa a ciência. Os três últimos capítulos têm como marca o M de Molly Bloom, onde encontraremos o último deles composto com 8 frases, sem nenhuma vírgula e um único ponto, distribuídas ao longo de 42 páginas. Representa a mãe-terra. Estou de acordo. Contudo, para mim, insiste uma frase do Fausto, de Goethe: "Nicht Kunst und Wissenschaft allein, Geduld will bei dem Werke sein." (Faust I). Se o filho e o pai representam a arte e a ciência, Molly por certo há de representar também a Geduld, a paciência.
E é aqui que nos defrontamos com o monólogo que servirá de base a peça Penélope Bloom.É o capítulo 18.
Chama-se Penélope. Uma homenagem ao capítulo XXIII de A Odisséia. Seu tema: o reencontro.
Depois de 18-20 anos, Odisseu voltara vencendo todos os outros pretendentes. Disfarçado de mendigo, Penélope não conseguia reconhece-lo. Convenceu-a um segredo de alcova – o tálamo construído sobre o tronco de uma oliveira de folhas alongadas [XXIII:190-91].
A metáfora de Homero é irretocável: é no inamovível tálamo que se sabe quem é quem.
É sobre esta personagem, Penélope, citada sempre como exemplo da esposa fiel, que Joyce irá construir a figura parodística da mal dita infiel Molly Bloom.
Conheçamos de Molly o que se pode conhecer. Veremos que não é muito. Seu monólogo não tem a mesma consistência do de Stephen Dedalus, um sujeito que veio d’a lus – permitam que o diga luz assim, com ‘s’ – inversamente para a sonora ‘ded’ (death), para a morte. Ela faz um balanço de sua vida, recorda, mas não se analisa. Enquanto Stephen se compara com outros buscando saber quem é, Molly, ao comparar-se com outras, fica restrita a um primário e alienante nível de identificação. Quem mais parece falar, é seu corpo.
Antes de entrarmos no monólogo propriamente dito, lembremos que de sua mãe, Lunita Laredo, ela não sabe nada (p. 773), ou morreu muito cedo, ou então desertou. Casou-se com Leopold Bloom, um peripatético vendedor de anúncios para jornal, com quem teve uma filha, Milly, e um filho natimorto – Rudy; a partir dessa perda seu marido tornou-se praticamente impotente. Molly, por sua vez, trabalha como cantora em um bar, o Palace, e é amante de seu agente teatral, Blazes Boylan. Como não é difícil de perceber, Molly está sempre às voltas com a falta, - para citar Churchil – de fracasso em fracasso, mas sempre com entusiasmo. Mas é verdade que a frase de Antonio Maria e Fernando Lobo em Ninguém me ama, poderia estar também na boca de Molly, que então diria: - Vim pela noite tão longa, de fracasso em fracasso.Vamos então ao monólogo.
Não é o mais difícil de ler. Se não tem pontuação, tem ritmo, o que facilita em muito a leitura. E também não tem tantas línguas, embora grande parte da gíria aí utilizada tenha que ver com o llanito. Pois lhes conto: Molly é originária de Gibraltar, uma península do território espanhol cedido ao Reino Unido pelo tratado de Utrech, em 1713. Aí, além do inglês, sua língua oficial, fala-se também o espanhol e o llanito, formado pelo inglês e o espanhol, porém com uma influência do árabe, do genovês, do italiano, do ladino, do maltês e do hebraico, mas não é nada difícil, tudo está dito com o mais conhecido de cada língua. Mas aqui, o que me chama atenção é o que o llanito tem em comum com este projeto Penélope Blum: outra vez a confluência do inglês com o espanhol, ainda que aqui o inglês esteja representado pelo português, o que certamente não será sem conseqüências.
Eu lhes dizia que o monólogo de Molly Bloom constituía-se em uma declaração de amor. Pois vejamos.
O cenário é uma cama e o tempo da cena o dia seguinte, as primeiras horas da madrugada do dia seguinte ao 16 de junho de 1904. O quê quer dizer isto? Que o que aí se descreve não tem lugar no dia [a dia]?
Molly Bloom é uma mulher infiel, uma paródia da fida Penélope, diz-se. Pois então. Uma das origens do deus Pã, uma das figuras mais populares de todos os tempos, é atribuída aos amores de Penélope com Hermes. Vejam só! E outra ainda, atribui sua origem aos amores de Penélope com todos os seus pretendentes, daí o sentido de ‘todo’ atribuído ao deus. De modo que a fidelidade de Penélope não é assim tão indiscutível. E o adultério de Marion?
Estamos lembrados que a cama é o lugar da verdade. E aí está Marion Bloom. Antonio Houaiss chama este monólogo de “solissômnio” – uma palavra que ele não incluiu nem no seu dicionário! – quem sabe para diferenciá-lo do monólogo de Stephen Dedalus. Ela está em um estado crepuscular, entre o sono e a vigília, entre o sono e o sonho. Seria uma maneira de interpretar a ausência de pontuação, uma forma de representar a atemporalidade onírica.
Ela começa surpresa com a mudança do marido. Ele, que sempre a servira, viera para a cama encomendando para seu desjejum um café acompanhado de dois ovos. É o seu primeiro sim! Quando se sente desejada, é dessas mulheres que só dizem sim. Um carvoeiro? – Sim. Um bispo? – Sim. O padre Corrigan a quis? – Sim. Bartell dArcy quer beijá-la depois de ter cantado a Ave Maria, de Gounod? – Sim. Harold a persegue pela chuva até ela dizer sim? – Oh! Maria Santíssima, sim! E Gardner, circuncidado ou não? – Sim. Henri Doyle, pedindo com 8 papoulas, no dia oito? Não beija tão bem como Gardner, mas sim. Na segunda-feira, sim. E o velho Goodwin, de rosto gelado? – Sim. Val Dillon, grande e selvagem? – Sim. O velho Larry, por uma garrafa de clarete que ninguém mais queria? – Sim. Alguém mais? Quem sabe uma banana? – Isso não, pois teme pudesse quebrar e ficar perdida em algum lugar lá dentro (789). No mais, todos páginas viradas no seu folhetim.
Com Boylan era diferente. Ele notava a forma de seu pé mesmo na presença de seu marido, o Poldy, querido! Uma cena que parecia excitá-lo. Quando se diz que dois é bom, três é demais, usa-se uma fórmula que não serve para todos os casos. Boylan, o terceiro, bem pode ser condição da felicidade conjugal. E então Molly lembra do dia em que foi pedida em casamento. Desde esse dia, ela só quer dizer sim. Em todas as perguntas, repete-se sempre esta que representou para ela a máxima expressão do desejo de um pelo outro, a máxima expressão do desejo de Leopold por Marion, a máxima expressão do desejo do homem pela mulher.

Depois de ter visto a peça, poderemos dizer com S. João:
- E o Verbo se fez carne.
[João, 1:14.]
Luiz-Olyntho Telles da Silva

1. Mesa na Livraria Cultura, em Porto Alegre, na companhia de Gerardo Bejanrano, Maria Falkenbach e Rubia Abs, respectivamente Diretor e Atriz da peça Penélope Bloom e a Advogada da ong Themis.

sábado, 10 de maio de 2008

Penélope Bloom retorna em cartaz

Dias 20, 21, 22, 28 e 29 /05 e 3, 4 e 5/06
Às 21 horas
No Teatro Renascença (av. Erico Veríssimo, 307)
Ingressos R$15,00, R$10,00 (pessoas com 60 anos ou mais, convênio ZH e promoções a critério da produção) e R$ 7,50 (estudantes).

domingo, 20 de abril de 2008

Zero Hora, 19 de abril de 2008

Odisséia feminina


Diretor costarriquenho encena na Capital o último capítulo do "Ulisses", de Joyce
Ler o romance Ulisses é uma verdadeira odisséia. Não é só um jogo de palavras: James Joyce (1882 - 1941) escreveu um dos romances mais importantes do século 20 variando sintaxes, idiomas e pontos de vista de acordo com o que o fluxo de consciência e emoção exigiam. Imagine encenar Ulisses ou uma parte dele que seja? O diretor costarriquenho Gerardo Bejarano topou a empreitada, que está em cartaz no Depósito de Teatro até 28 de abril.
Para ser exato, a peça Penélope Bloom encena apenas o último capítulo de Ulisses, um longo monólogo da personagem Molly Bloom, que se estende por oito frases, nenhuma vírgula e um único ponto. Bejarano assume a multiplicidade proposta por Joyce e coloca em cena duas atrizes - a brasileira Maria Falkembach e a costarriquenha Vicky Montero. Elas dividem a cena por todos os 75 minutos de Penélope Bloom, repartindo falas em português e espanhol. Seus estilos de interpretação são diferentes e complementares - Maria privilegiando o corpo, Vicky se detendo na construção mais tradicional de uma personagem.
- Tudo para alimentar o cubo - resume Bejarano, que se divide entre seu país e o Brasil há quase 20 anos. - Os conflitos inevitáveis de estilo que ocorrem em cena são usados para multiplicar os sentidos de Penélope Bloom.
O espetáculo, inclusive a trilha sonora do gaúcho Leandro Maia, foram criados um pouco no Brasil, um pouco na Costa Rica. Como Joyce pregava, valeu especialmente a intuição. Vicky explica como descobriu sua linha de interpretação:
- Estava em um ônibus na Costa Rica, e uma mulher falou por mais de 90 minutos sem pausa. Vibrei: ali estava a minha Molly.
Maria, que conheceu Bejarano enquanto fazia mestrado na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em 2005, aponta ainda mais um fator de multiplicação. Segundo ela, o monólogo de uma mulher, vivida por duas mulheres dirigidas por um homem, tem tudo a ver (e ouvir) com a obra de Joyce:
- As contradições de Molly estão em cena até de maneira física.
Bejarano insiste na fidelidade a Joyce:
- Ele enxergava o extraordinário na conduta humana mais simples. Penélope Bloom é assim, um olhar extraordinário.
Penélope Bloom
De quinta a segunda, às 20h. Duração: 75 minutos.
Depósito de Teatro (Câncio Gomes, 218, fone 51 3061-5251). Lotação: 70 lugares.
A peça: Gerardo Bejarano dirige uma adaptação do último capítulo do romance Ulisses, escrito por James Joyce.
Ingressos: R$ 15 e R$ 10 (Clube do Assinante, estudantes, maiores de 60 anos e classe artística). À venda somente na bilheteria do teatro.
Preste atenção - A trilha composta por Leandro Maia usa piano, fagotes e percussão para interferir na peça.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Sobre o processo de criação e eu uma


Tudo começou com Adélia Prado. Talvez tudo tenha começado com o meu medo de não saber dançar. Mesmo envergonhado, esse corpo procurou e encontrou Adélia. Que me deu coragem, e ainda dá.
Na procura de compor como Gertrude Stein descobri um nome para o que fazia: transcriação. Uma reinvenção uma recomposição uma rearticulação no corpo de uma que queria ser uma daquela escrita que outra uma buscava para ser uma.
Agora o desafio de destecer Joyce e tecer corpos num espaço-tempo cênico. Esse tecido está cheio de teoria teatral corporal o escambal. Mas nesse momento só lembro das noites paralelas à noite de Molly, meu corpo noite-vigília vivendo os movimentos desta uma. Neste agora bem aqui só penso no eu que esse processo produziu. No confronto constante com o masculino de Joyce e do diretor, na busca do meu feminino.
Penélope Bloom: Reafirmação de meu corpo. Corpo Delícia. Constatação do meu poder. Mulher-vida-possibilidade-fertilidade. Afirmação desse modo complexo feminino de ser. Sim à não-razão. Molly transborda mulher. Possibilidade de reivindicar meu masculino femininamente. Duro e macio ao mesmo tempo. Uma mistura de ameixa e maçã.
O recomeçar a tecer é retomar, todos os dias, os pequenos fatos, as pequenas (rel)ações, laços de afecto, infecções, que nos fizeram. E destecer é desconstruir, desfiar-se, desafiar-se para se reinventar. A busca do corpo que se faz e se re-faz, que se desmancha no outro para manchar-se em si mesma.
Recomeçar. Reapaixonar-se. Remontar o tesão pelo existir. Sempre sempre sempre.
Verdade ou mentira, meu corpo vive e enche o dia-a-dia e toda a minha vida.

terça-feira, 8 de abril de 2008

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Presente de Donaldo

O monólogo feminino opõe-se ao solilóquio protéico de Stephen. O sistema é geocêntrico. Se Molly se movesse, aderiria ao conflituado heliocentrismo dos homens, não seria a Terra. Molly é Penélope mais todas as mulheres que perturbaram a mente de Ulisses na sua longa viagem: é saber, é mistério. A cantora (sereia?) afirma a vida: juventude, paixão. Molly descende de Mefistófeles? Então, o diabo é mulher, Lilit, a primeira companheira de Adão, sedutora, diabólica.
Donaldo Schüler

O monólogo de Molly Bloom


O fluir da consciência que detinha Stephen Dedalus em suas decisões permite agora a Molly fazer um balanço de sua vida. Não é certo que o fluir da consciência tenha a forma de monólogo. Se todo discurso se edifica sobre outro discurso, em todo o discurso o diálogo se estabelece. Presente, passado e futuro se mesclam. A primeira lembrança que lhe vem à mente é a da manhã do dia que termina, o desjejum. O que foi visto na perspectiva diurna de Bloom é revisto na perspectiva noturna de Molly.
Embora Molly esteja continuamente preocupada com a sua existência corpórea, ela conceitualiza. Não recorda apenas os fatos, ela os comenta e, de alguma forma, procura ordená-los. Não o faz como o faria um pensador, e nisso ela contrasta Stephen. O jovem tenta compreender-se na vida individual e no universo, analisa Shakespeare para compreender-se.
Molly fica presa ao que experimentou. Podemos ver no monólogo dela a diferença de quem experimenta e daquele que pensa. Falta, por outro lado, a Molly o padrão metafísico que carateriza o monólogo da Justine do Marquês de Sade. Justine enlouquece porque ideologia e realidade não coincidem. Há um ingrediente quixotesco em sua personalidade. Justine perde a razão, Molly adormece. Stephen reorganiza: mata simbolicamente a mãe, e simbolicamente edifica a realidade sobre o filho (ele próprio) que tomou o lugar do pai. Verbalizar não é ainda pensar. Pensar é aviliar, encontrar um sistema de idéias que sustente o vivido. Molly revela sentimentos de mãe e de amante em relação ao marido e em relação a Stephen que espera conhecer melhor.
Donaldo Schüler

quinta-feira, 3 de abril de 2008

MOLLY

Olá!
Por favor, uma definição de você. De ti mesmo!
Quero saber mais que nome e profissão, quero saber como você é.
E?
Como tu pensas? Como te moves no mundo? Como te relacionas?
Difícil definir alguém, né?
Maravilhosamente complexo.
Assim é Molly.
Tenho me aproximado mais dela a cada dia. A cada ensaio mais sutilezas, contradições e detalhes desta mulher. Não sei definir Molly. Sei experimentá-la em meu corpo e saberei vivê-la 1 hora e 30 minutos a cada dia que fizermos o espetáculo.






terça-feira, 1 de abril de 2008

Um presente da Luci, pra nós

RETRATO DA DIVA ENQUANTO MUDA
Imitação: uma espera que ele volte da guerra, a outra espera que ele volte da rua; uma enreda entretece e destrabalha, a outra envermelha, envereda e entretém.

A ficção de Molly é ser Marion é ser Milly é ser Penélope é ser Nora é ser virgem é ser a própria odisséia numa flor encontradiça. Sim, floreios e umidades, assim é que a gibraltarina do canto inversão de sereia enganará a todos menos o marido. A todos, mas jamais a si. Eternamente fiel aos que lhe habitam Sim os minutos.

O por dentro o porventura: mãe primeira mãe de filho morto mãe do infinito mistério e nunca – o que é certo: esposa. Molly sangrando vermelhos brota em orgástico fluxo. Da consciência, fique claro. Cama mundo morada Sem pontos Meus pensamentos Sem medos Suas policromias. Eternamente infiel aos que lhe desabitam Sim vãos.

No fim, as frases. As sentenças todas. Uma palavra ruidosa uma palavra feminina. Um encantamento Eu uma flor da montanha Tu uma flor nos cabelos como Elas as garotas andaluzas usavam.

Fêmea molhada vinga desabrocha. Ei-la em sendo o mistério do corpo na floração os corpos que se desejar: sim fazendo o impossível do nunca voltar.

Luci Collin